27 de setembro de 2016

Cosme e Damião

Cosme e Damião
tinham também três irmãos...
Paca, cutia e tatu, onde é
que eles estão?

Cosme e Damião,
o mundo é imenso pião!

Cosme e Damião,
pra onde é que vocês vão?
Não levam ouro nos bolsos,
moeda nenhuma nas mãos...


Poema inspirado em uma ilustração de João Lin,
neste dia 27 de Setembro.

26 de setembro de 2016

150 Anos de Peer Gynt


1. Adágio para duas vozes

 
Pra m’inspirar
abro a janela como um jornal...

O silêncio é
uma paisagem constante.

Querida Solveig,    
Peer Gynt,
Tenho pensado muito em você...
E agora nesta hora da minha vida
tenho uma vontade vadia como um fotógrafo.
Uma vontade de voltar, vontade
que cresce a cada ilha
e passos deixados para trás.

Em sonhos, pequenos delírios
ouço as palavras que são suas.
Palavras repetidas
em um sorriso elegante e sem jeito,
como o canto de pássaros
 que ninguém vê nas árvores.

Quem sabe....                
no futuro, quando os homens
inventarem as agências de correio,
Quem sabe, os amantes
talvez possam trocar
carinho e chocolate em suas cartas!

todos os amantes
possam trocar
confidências em segredo!

No entanto, é grande a espera até
que você chame a Federal Express...

Eu aproveitaria
e mandaria os cartões postais
dos lugares que vi...
tantas paisagens, oceanos, imagens...

E eu guardaria
as polaroides recebidas
como o roteiro de sua viagem.

Mas há essa distância!
Toda essa ausência...
A maldita distância
no tempo e no espaço
deixando tudo impossível!
consome horas
e horas de espera...

Como eu gostaria,
de um dia, receber
notícias suas.


Querida Solveig,
minhas cartas mal escritas,
meus afetos em desalinho
ficam comigo guardados
para serem todos entregues
em seu ouvido.

Quem sabe,
ecoarão nossas vozes
pelo tempo... o ar
carregado de eletricidade!

Que alegria teu rádio...
Fiquei tão contente
Que fui à missa.
Na igreja toda gente me olhava:
Ando desperdiçando beleza
longe de ti.



* Peter O’Sagae. Peer Gynt – 1. Adágio para duas vozes.
Do roteiro original inspirado na música de Edvard Grieg para a peça de Henrik Ibsen. Versos incidentais de Oswald de Andrade. Rádio USP FM, 1996. Noites poéticas, 1997.

2. O Amanhecer. Na Noruega



Sempre me senti
um gigante em minha terra,
entre duendes, sílfides e nereidas.
Nada me causava medo
ou espanto entre os seres da natureza
nem mesmo os homens,
nem mesmo os troll,
nem mesmo os grandes animais.

Aase, a Velha,
sempre me contava suas façanhas.
E fui ficando encantada
com sua coragem e imaginação
frente a qualquer perigo.
Nenhuma porta, nenhum muro
seria resistência em seu caminho!

Como poucos, eu conheci as lutas e as tempestades.
Como poucos, eu amei a palavra liberdade
e por ela briguei.

A sua liberdade acima de tudo
foi raiz e corrente
a deixar-me presa
ao solo desta terra, fria
demais sem você.

Conquistei territórios, acumulei riquezas,
tornei-me imperador de mim mesmo.

Tenho morado
nesta cabana, nosso castelo,
desconfiando de seu esquecimento
sobre o passado em que vivo.

Mares e terras, abismos venci.

Talvez tudo não seja nada
além de um sonho,
meu pesadelo lento e
acalanto...
Aase dizia coisas, Aase sabia!
Ai de mim, tola! Deixei-me
levar por sua balada, balelas...

Aase! Como era
forte essa mulher!



* Peter O’Sagae. Peer Gynt – 2. O Amanhecer. Na Noruega.
Do roteiro original inspirado na música de Edvard Grieg para a peça de Henrik Ibsen. Versos incidentais de Oswald de Andrade. Rádio USP FM, 1996. Noites poéticas, 1997.

3. Aase in memorian


 

Não sei até hoje,
o que pode ter acontecido.

Eu estava decidido
a ter uma simples cabana
como meu palácio,
o seu reino de sonhos, Solveig.

Acho que um vento, o Curvo,
o levou para longe de mim
esquecendo somente palavras
jogadas à porta.

Eu respirava o ar sem veneno,
alegre por recomeçar ou finalmente
entrar para vida real fincando os pés
no chão.
Mas vieram os fantasmas,
jovens que riam, mulheres
vestidas de verde,
rostos
conhecidos e sem nome.

Ainda era dia
e você
reclamava da falta de luz.

Tudo escureceu em meus olhos,
meu coração carregava muito peso,
o peso dos erros, os erros do passado.

Ainda era dia
e você voltava para casa.
Mas... não entrou, ficou
parado do lado de fora
e pediu que eu esperasse


O tempo que for necessário         
...esperarei - respondi.
E vi seu vulto, seguindo o vento
descendo o mundo.

Perdido em silêncio,
senti a falta do colo da Velha
e, mesmo proibido, apertei os passos
em direção ao vilarejo.
Fui entrando em casa.

A noite se ergueu
pedindo que eu acendesse
o fogo.

Na lareira, uma lasca de brasa
defendia-se contra a escuridão.
Depois que as autoridades mandaram
buscar nossos bens, quase nada restou
além de meu velho berço. Ali,
Aase dormia.
Sua única companhia era um gato velho
e fiel. O assoalho rangeu, e ela acordou
um sorriso murcho nos lábios.

Como está, minha mãe? Tem sede?

Esperei.

Vou cobrir seus pés.

Neste gesto, fui lembrando, quando criança,
as brincadeiras inventadas debaixo daquela coberta
às vezes tenda, às vezes carroça, e eu corria
ao encontro de aventuras em países distantes.
Aase participava em algumas viagens:
colocava o bichano à frente do berço
feito um corcel veloz.
E sentada, em sua cadeira, como cocheiro,
a velha olhava para trás, perguntando
se tudo estava bem ou se eu sentia frio!
Essas lembranças foram ganhando vida,
formas e cores, enchendo o pequeno aposento
de paisagens e alegria.

Mas, desta vez, eu seria seu cocheiro...

Mamãe pediu para que eu fosse
com cautela, estava exausta com dores
e tinha um pouco de medo. Expliquei que
a pior parte do caminho
já havíamos passado.
Aase insistiu em seu medo, o vento
parecia-lhe mais frio e via uma estranha luz.
Para mim, eram os pinheiros que uivavam
e as janelas do castelo de Soria-Moria.

Lá longe, acontecia um baile
e o porteiro não era outro, senão São Pedro
recebendo a todos muito gentil
com um copo de vinho na mão...
A velha perguntou pelos doces.
Sim, haviam muitos, de boa aparência 
preparados pela finada esposa 
de nosso antigo pastor.
Aase ficou satisfeita, pois poderia 
colocar as conversas em dia...
Há tempos não falava com a comadre!
Mas estava cansada, sem poder
suportar o resto do percurso.

Fique tranquila, minha mãe,
estarei sempre aqui. Feche seus olhos!

Olhando para as estrelas,
única luz para os viajantes,
rezei pedindo proteção...

Caí de joelhos, iria rezar
mas acabei brigando com Deus,
ordenando-lhe que abrisse
as portas do Céu para a Velha.

E a noite
se fez madrugada,
e a madrugada,
outro dia.
Você não voltou...

Peer, em que lonjuras
do mundo, você
agora se encontra?



* Peter O’Sagae. Peer Gynt – 3. Aase, in memorian.
Do roteiro original inspirado na música de Edvard Grieg para a peça de Henrik Ibsen. Versos incidentais de Oswald de Andrade. Rádio USP FM, 1996. Noites poéticas, 1997.