7 de setembro de 2017

outro haicai


vem, pousa e posa
prevendo a fotografia
o sabiá-poca


foto do sabiá branco ou sabiá-poca que registrei pela hora do almoço, atrevido, em santa rita do passa quatro, sp, 2017

13 de julho de 2017

Tudo é mídia.

Tudo é mídia
E tenho medo.

Não tenho governo.
Tenho vergonha
E medo.

Tudo é mídia
E fingimento sem pessoa.
Tenho medo
De acordar um dia
sem meus amigos.
Tudo é mídia
E morte cerebral.

Tenho medo
E essa dor temível.
Municipal.
Sem domínio.
Estado deplorável.
Acutela-me
Lentamente.
É isso e mais isso...
Não é mais
Efeito colateral.

Tenho ódio
E ânsia de vômito.
Tenho nojo.
Tudo é mídia.

Anestesia-me,
Por favor.

Não há lugar
Entre os inimigos
Para a poesia.
Eles me veem
E me cercam
E me abraçam!
Ignorante e doente
Não ouso seguir adiante.
Não compreendo
Por que eu só tenho medo.
Nenhum governo.
Só eu
Tenho medo?
Tudo é mídia
E ponto final.

.
.

[peter O sagae] + detalhe de uma pintura de Hieronymus Bosch: A Extração da Pedra da Loucura, ou A Cura da Insensatez (c.1475-1480).


10 de julho de 2017

Reinos são tristes fardos


Angela Lago trouxe hoje uma boa provocação/reflexão. Sua leitura/síntese para o poema KINGDOMS ARE BUT CARES, atribuído a Henrique VI da Inglaterra. As quadras mostram-se ainda atuais. Fiz também uma tentativa.

Reinos são tristes fardos;
Encargos sem permanência;
Riquezas apertados laços
Que levam à decadência.

Prazer é um formigamento
Que o vício docemente acalenta;
Repentina pompa; a fama, uma chama;
Poder? Fúmida fumaça lenta.

Quem se lança a remover o rochedo
Do lamaçal imundo,
Terá a si mesmo, lamentavelmente, preso
Ao gorgolejo profundo.

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Kingdoms are but cares;
State is devoid of stay;
Riches are ready snares,
And hasten to decay.

Pleasure is a privy prick
Which vice doth still provoke;
Pomp unprompt; and fame, a flame;
Power a smouldering smoke.

Who meaneth to remove the rock
Out of the slimy mud,
Shall mire himself, and hardly scape
The swelling of the flood.

A palavra "formigamento" tomei do vocabulário sensorial de Angela Lago, para os termos que pensei traduzir visualmente como "ferida oculta".

P.S. Leo Cunha animou-se e apresentou, em roda, a terceira versão para as três trovas de aconselhamento:

2 de julho de 2017

QUEM TEM O DIREITO...


Disseram-me: Não te faças tantas perguntas.
Tu pouco sabes, a vida é que virá te responder.

Para quê desejas saber tudo, tudo agora?
Atentes para o céu e vejas o que tu podes ver.

Disseram-me também: Deves ouvir a teu pai.
O meu nada disse, porém, quando partiu...

Mamãe disse: És pequeno ainda para entender.
E cresci com um lugar ausente em meu peito.

Quem tem o direito, quem tem
Quem tem o direito de fazer isto
A um menino que realmente acredita
Nas coisas que ditam os mais velhos?
Passamos a vida a repetir – Obrigado,
Obrigado por isso, por aquilo!
Pelo tempo bom, pela chuva que cai...
Pelas crianças a quem já mentimos.

Disseram-me: Todos os homens são iguais,
Os deuses inúmeros, porém só existe um sol.

Sim, eu sei, aqui o sol brilha, além ele abrasa,
Ou morres de sede ou bebes da ilusão.

Disseram tão prontamente também a ti
Bonitas histórias, tu então as relatas de cor!

Agora nos encontramos outra vez na estrada
Com nossos medos, nossas angústias e dúvidas.


* Canção escrita por Gérard Presgurvic, composta e interpretada por Patrick Bruel (1991). Caderno de traduções de Peter O Sagae, julho de 2017.



*

30 de junho de 2017

pedra, pessoa

de volta a Neide Medeiros Santos
Nas Trilhas da Literatura


no meio do caminho de nossas vidas
esta pedra sobrevoa agora minha memória
meu carinho por suas lições
por fazer-me acreditar em poetas
o muito obrigado por esta pedra, pessoa

esta pedra guriatã das asas de suas mãos
vem me contar a história de suas artes, todas
silenciosamente, silenciosas outras

esta pedra, como fala, esta pedra passagem
ensina a não sentir-me onde estou...
esta pedra voa em versos de ocasião
de almas habitando-me, alma pintora